Clarice Lispector, poeta!

“Você tem peixinhos nos olhos: você é bissexta: faça versos, Clarice, e se lembre de mim… Clara… Clarinha… Clarice” (Manuel Bandeira, 2002.)

Clarice Lispector, quando criança, foi musicista — dedilhava suavemente o piano. Já começava a fazer pequenas peças de teatro e escrever crônicas para os jornais, no início recusadas. Tempos depois, tornava-se uma escritora até seus últimos dias de vida terrena.

Por ocasião da prematura morte de sua mãe, Clarice compôs uma música com dois movimentos: um triste e outro violento. Tristeza combina com violência quando se perde um ente querido — amor e ódio, ingredientes da vida, desde o início que tem fim. Vem daí o ser absurda no sentido maior, que lhe dava Albert Camus em seus escritos sobre “O homem revoltado”.

Em “Clarice Lispector – Uma vida na literatura”, livro organizado por Matildes Demétrio dos Santos e Mônica Gomes da Silva, Ed. Oficina, surpreendo-me com dados de pesquisa acerca de Clarice poeta. Sendo mais fiel, referência à arte poética de Lispector, uma vez que já se sabe através da leitura da autora e de artigos críticos literários, que a ucraniana-alagoana-pernambucana-carioca, cidadã brasileira, tem em sua escrita uma bela prosa poética.

Flavia Vieira da Silva Amparo, no capítulo 12 do livro organizado por Matildes e Mônica, oferece a seguinte citação de Clarice: ”A palavra é o meu domínio sobre o mundo, eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós”.

Retomando minha intenção de lembrar a meus leitores que Clarice era também uma poetisa, ainda no capítulo de Flávia, encontramos um fato curioso e engraçado: nosso poeta singelo, doce e afetivo demais, Manuel Bandeira, criticou alguns poemas que Clarice lhe mandou, fato esse do qual tempos depois se arrependeu profundamente: “Você é poeta, Clarice querida. Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mandou. Você interpretou mal as minhas palavras”, escreveu Bandeira”.

Adiante, Flavia escreve: “O remorso de Bandeira parece sugerir que as consequências de sua crítica foram levadas muito a sério por Clarice, de modo que os prelúdios do poético, de uma obra inteira que poderia ter sido e não foi, tiveram os primeiros acordes silenciados antes mesmo de virem a público. A carta 45, entretanto, esforça-se por manter acesa a chama da poesia no horizonte de Clarice, sendo um apelo pela continuidade do lírico, ainda que de forma bissexta.”

Deixo aqui, por hoje, dois poemas de Clarice:

Mas há Vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idEias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos
por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é…

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