Quem sou Eu? Quem é você?

Quem sou eu? Eu, Ego, Self, SuperEu, os Outros, nenhuns olhos (refiro-me aos olhos intrauterinos)? Procuro palavras, vou ao encontro de pensamentos, mas ainda não me chegam as palavras, só intuições, imaginações. Angústia de escrever é sofrimento de transformar o pré-verbal em comunicação verbal, escrita. Sofro, vivo o silêncio de perguntar. Perguntar não cria inspiração, leva ao nada da racionalização, do intelecto sem ponte com o coração. “O corpo é a sombra da alma”, escreveu Clarice! É urgente nesse momento deixar surgir na alma, o indizível do corpo, do antes do pensar.

Somos vários Eus, afirmam os psicólogos e psicanalistas! Porém, qual o verdadeiro Eu, meu, e dos Outros? Nos textos de Lispector, nos artigos críticos-literários, nos ensaios vários sobre nossa escritora, fica sempre a questão que a acompanhou toda sua vida e obra: “Clarice escreveu uma experiência incompleta”.

Hoje, antes do anoitecer, sobreveio uma inquietante angústia: quem sou eu e quem são os outros? Bateu a coragem de improvisar, de associar: Essa questão provoca outra, inclusive de âmbito filosófico —- O Ser e o Existir. Ainda é simpática para mim a problemática e inferência existencialista, que pressupõe (escrevo pressupõe, pois não acredito em verdades últimas): “a existência antecede a essência”. O ser vai se fazendo durante o existir, a tal da “personalidade” se faz durante a travessia entre o nascer e o morrer. Só uma coisa sabemos: Somos todos destinados a morrer, isto sim, é verdade.

Quem sou eu, quem são os outros? Vários Eus, nunca um verdadeiro eu! Clarice sempre andou procurando o que chamou de “a Coisa”; Kant viveu e não conheceu o númena; Freud jamais esgotou o Inconsciente; Wilfred R. Bion, psicanalista indiano-inglês passou sua vida procurando o “O”. Enfim, aparece na psicanálise inglesa, Donald Winnicott. Perseguiu em toda sua clínica chegar ao que chamou de “verdadeiro self”e “falso self”.Falso não no sentido moral, mas uma espécie de estrutura que a criança faz desde seu nascimento para evitar o contato com o verdadeiro eu. O processo analítico winnicottiano é uma constante procura e descobrimento do “eu verdadeiro”. Acontece que nós nos defendemos sempre de conhecê-lo. Dói, machuca, angústia e às vezes nos enlouquece. Mais uma vez, Clarice afirma: “O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções. Estou perdida: eu não tenho hábitos…   é bom ficar um pouco triste. É um sentimento de doçura. E é bom ter fome e comer.. não tenho medo da loucura: ouso uma lucidez gélida”.

Clarice Lispector e os psicanalistas pós-modernos parecem concordar que hoje, pensar em “estrutura” não convence mais, pois o Eu sofre variações de comportamentos psíquicos proporcionais aos seus mecanismos de defesa. Outrora, o recalcamento imperava na constituição das chamadas Neuroses. Atualmente, observa-se na clínica e no ensinamento de escritores tais como Clarice, Manoel de Barros, James Joyce, Virginia Wolf e tanto outros, que o conhecimento da alma humana não é somente da ordem neurótica, mas também  perversa, borderlines ou limítrofes e psicótica. É claro, que estou falando em concepção dinâmica e não diagnóstica, médica e psiquiátrica.

“Escrevo para me livrar da carga difícil de uma pessoa ser ela mesma”(In, “Um Sopro de Vida).

Deixo-me sem resposta, e ao leitor, idem, pois ser si mesmo é uma colcha que teremos de ter a coragem de tecê-la até o fim. Conclusão, por enquanto: somos sendo sempre diferentes quando nos refletimos no espelho: uma constante variação, assim com J.S.Bach nos ensinou.

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