SPBsb realizou a roda de conversa “Tudo Sobre Minha Mãe” sobre identidades de gênero e sexualidades a partir de Almodóvar

Encontro promovido pelo Grupo de Estudos de Psicanálise de Casal e Família reuniu psicanalistas para refletir sobre maternidade, laços familiares e fluidez de gênero

A Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPBsb) realizou, nesta quinta-feira (27), a roda de conversa “Tudo Sobre Minha Mãe”, que debateu as identidades de gênero, as configurações familiares e os processos de subjetivação presentes na obra de Pedro Almodóvar. O encontro, que aconteceu de forma online, foi promovido pelo Grupo de Estudos de Psicanálise de Casal e Família, com apoio da Diretoria de Comunidade e Cultura.

A convidada da noite foi a psicanalista, psicóloga e autora do texto “Minha Mãe é Tudo?”, Manola Vidal, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. A coordenação foi conduzida pela psicanalista da SPBsb Maria Lúcia Canalli.

Família como espaço psíquico vivo

Ao abrir o encontro, Maria Lúcia Canalli destacou o diálogo entre psicanálise e criação artística, lembrando Winnicott e a potência simbólica das narrativas de Almodóvar.

“Como nos lembra Winnicott, não existe bebê sem ambiente. A família é o primeiro continente do mundo interno. Almodóvar, por sua vez, nos mostra que as famílias podem se desfazer e se reinventar, porque o amor sempre encontra uma nova forma”, afirmou.

A coordenadora ressaltou que o cinema do diretor espanhol permite pensar os laços familiares para além do modelo tradicional, explorando arranjos inventivos, afetos cruzados, rupturas e reinvenções.

“Trabalhar e escutar famílias exige de nós uma presença especial, uma escuta capaz de acolher múltiplas vozes, conflitos e paradoxos. Em Tudo Sobre Minha Mãe, vemos maternidade, identidade, perda e luto coexistindo com ternura e complexidade”, concluiu.

Entre Almodóvar, teoria queer e psicanálise

Em sua exposição, Manola Vidal compartilhou o percurso teórico e afetivo que fundamentou seu capítulo dedicado ao filme no livro As Famílias de Almodóvar. Ela relatou o impacto do convite para revisitar um texto escrito anos antes, experiência que, segundo a psicanalista, evocou a sensação freudiana do “estranho”, ao reencontrar algo familiar que já não é exatamente o mesmo.

Manola apresentou uma leitura que articula teoria queer, psicanálise freudiana e winnicottiana, e elementos da epistemologia rizomática, de Deleuze e Guattari, para pensar a complexidade dos laços que emergem no filme.

“A produção queer questiona identidades fixas e a heteronormatividade, abrindo espaço para modos de existência antes considerados ininteligíveis”, explicou. “Almodóvar opera justamente nesse campo: amplifica experiências afetivas e familiares que escapam à norma, mas que carregam enorme potência de verdade.”

A palestrante destacou também como sua pesquisa sobre gênero, subjetividade e clínica com pessoas trans ressoou com as reflexões presentes nas cenas iniciais do filme, especialmente na relação entre Manuela e Esteban.

Maternidade, idealização e transmissão psíquica

A partir de um recorte das três primeiras cenas do filme, Manola analisou a dinâmica entre mãe e filho, marcada por idealização e pela dificuldade de Esteban de reconhecer a alteridade materna.

“Esteban ama a mãe através da adoração, o que impede que ele acesse a dor de percebê-la em sua humanidade”, disse. “Isso limita sua experiência emocional e sua capacidade de simbolizar. Ele responde concretamente ao que sente, transformando a mãe em protagonista de um filme dentro de sua própria fantasia.”

Manola observou que o percurso de Manuela após a morte do filho, reencontrar amigos, revelar a verdade ao pai e, mais tarde, cuidar de um bebê que sobreviveu ao HIV, pode ser lido como um modo singular de elaboração do luto, em que ruptura e reinvenção se entrelaçam.

Um encontro entre clínica, arte e pensamento contemporâneo

Ao final, a convidada agradeceu a delicadeza do convite e ressaltou a importância de encontros que conectam diferentes campos do saber.

“Escrever, reler e apresentar esse capítulo foi reencontrar sementes do pensamento que sigo desenvolvendo: sobre gênero, fluidez e a complexidade das experiências humanas”, afirmou.

A roda de conversa encerrou-se com perguntas e comentários dos participantes, reafirmando o compromisso da SPBsb com a promoção de debates que aproximam psicanálise, cultura e diversidade.

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